Domingo, 11 de Janeiro de 2009
Caramba negão !
Nada como algum momento a sós para repararmos nossos pensamentos, indexarmos nossas prioridades, balancearmos nossas alegrias,nossos conflitos , mergulharmos adentro e darmos de frente com nossos medos ao longo dos nossos dias vividos.
E foi num desses momentos, que entrei em meu quarto, apaguei as luzes, sem nenhum barulho a me incomodar, comecei a fazer uma limpeza nos meus estresses, sentimentos e tudo mais.
Comecei a me imaginar nascendo, o primeiro choro, após o primeiro tapa dado pelo médico, a infância simples e pura, da saudade daquela chuva da tarde no interior, dos barquinhos de papel a escorregar graciosamente pela correnteza, dos pés descalços, sem camisa, olhar inocente, pronto para o que der e vier. Isso sem contar as pipas, os carrinhos de madeira, o bilboquê, o patinete, as peladas e por aí vai...
Chego então na adolescência que passou rápido, onde entramos no terrível período do conhecimento, do primeiro emprego, da primeira namorada, o sentimento de herói, um pouco dono de um mundo que parece ser só seu e o das possíveis desventuras..
Finalmente entramos amargamente nas contas dos “enta”, quarenta, cinqüenta, sessenta, e é aí que nos defrontamos com a mais temerosa pergunta: até quando?
Já contava Wood Allen, que em uma festa, um amigo perguntou se estava contente de estar naquele evento e ele respondeu prontamente:
- Com certeza! Porém com a minha idade estou contente de estar em qualquer lugar...O importante é estar...
E assim continuo meu auto conhecimento, mas interessante mesmo é que não vieram lembranças tão ruins, embora tivesse passado por intempéries de todo o tamanho, as coisas boas resistiram em meus pensamentos.
Lembrei-me então de coisas pequenas, mas que me fizeram sorrir, e de certa forma criaram pointers em minha existência:
Como exemplo, um porteiro de meu prédio em dado momento da vida chamado Adelino, que um dia me cumprimentou ao chegar do trabalho:
- ´ Utentasso´ seu Demí.
Eu não entendi direito, mas ele repetiu:
- Utentasso seu Demí.
Eu prontamente respondi:
- Utentasso.
E subi ao meu apartamento perguntando: será que o Adelino apreendeu a falar alemão?
Mais tarde fui comprar pão e não agüentei:
- Adelino, você falou em que lingua quando adentrei no prédio, quando disse Utentasso ?
E ele respondeu:
- Não seu Demi, eu falei Utentasso, a lutcha de hoje.
- Ah! Agora sim, Adelino! Hoje tem Taison, a luta de hoje pelo título mundial ... Ha sim hoje tem Taison.
Lembrei-me também da ex-secretária de meu pequeno escritório, que tirou uma cópia de um documento e virou toda contente, tentando mostrar eficiência e falou :
- Olha que legal, a cópia saiu igualzinha!...
Essa mesma secretária não conseguia fazer certa porcentagem em uma máquina de calcular, e falei para ela dar uma limpada e começar tudo de novo. Ela pegou a blusa e limpou o mostrador da máquina!!!
E aquele mendigo que gritou nervoso para seu largado cachorro que errou o caminho ao atravessar a rua:
- Você sabe que não é por aí, quantas vezes tenho que repetir isso?!
E ainda completou:
- Caramba, negão, o que mais posso fazer por você?
Ao segurança de uma grande empresa em São Paulo que na dúvida perguntei :
- Por favor, aqui é zona azul?
E recebi como resposta:
- Desculpe senhor, mas não tenho permissão para informar.
E lembrei do meu filho que estava esperando ônibus na Consolação quando um cego que estava ao seu lado , perguntou :
Por favor que ônibus vem vindo ?
Ele me contou que embasbacou mas falou o que viu ..
É o Boa Vista.
O cego falou : que coincidência filho , mas obrigado ...o meu é o Pedra Branca...
E teve mais algumas pílulas de humor rememoradas naquele momento de reflexão, que efetivamente passei !
Mas fica uma pergunta a todos que leram esta minha coluna:
Nessa minha viagem interior, por que houve uma total predominância de fatos leves e até cômicos que suplantaram coisas sérias e complexas passadas?
De minha parte, penso que nosso inconsciente também cansa da perversidade diária das tristezas, traumas, medos, dúvidas e incertezas.
Seria como uma ordem comandada pela nossa mente, para darmos uma tangenciada para o sei lá o que , é determina para deixar a vida correr, no fim tudo dá certo...
É como se a nossa mente desse uma dura como o mendigo para o seu cachorro:
- Caramba, Negão, o que mais posso fazer por você?
Texto : Ademir Teles
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